segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Biografia IX

                    Daremos continuidade à apresentação da vida de Hannah. Estou aberto a sugestões de textos para comentar e ou conceitos para abordar. Abraços a todos e obrigado!

I – Biografia IX

Günther e Hannah passam a ter brigas mais frenquentes e ela comenta com seus amigos mais íntimos que ao final até mesmo a presença física dele a incomodava. Por esse período, após longa data sem ver Heidegger, eles passam um pelo outro na estação de trem e Heidegger finge que não a viu. Nas correspondências entre os dois ela o perdoa por tal gesto.
Hannah, a partir de 1930, começa a ver o sionismo como engajamento político. Para ela a questão não é: como ou por que nos tornamos uma pessoa engajada. Mas: como pode acontecer de não o sermos? Ela milita em uma organização judaica presidida por Kurt Blumenfeld a favor do sionismo alemão e Günther cria um grupo intelectual. Porém ela não fará parte do movimento propriamente dito, mas se engajará por amizade a seu lado.
Em 1933 será o ano em que Hannah romperá definitivamente com Heidegger. Não nos cabe aqui julgar sobre quem estava certo, mas sim compreender. Compreender que foi até o final da vida o imperativo da vida de Arendt.  Heidegger se torna nazista e aceita ser reitor da Universidade  de Freiburg em abril de 1933.  Pronuncia discursos nazistas. Ao que se sabe nunca se arrependeu, ao menos publicamente. Isso não impede de se considerar sua obra uma das mais inovadoras do século XX.

Desde 1930 Jaspers diz se sentir velho e cansado e incita Heidegger a renovar a Academia. Certamente não era no nazismo que Jaspers via a renovação. Heidegger se refugia em seu chalé e trabalha sem parar. Em uma carta ele pergunta a Jaspers: “Será que conseguiremos fazer, para as próximas décadas, um solo e um espaço para a filosofia, e que homens virão trazendo em si uma injunção distante?”.

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Preconceito e Política

Senhoras e Senhores! Publicando de tempos em tempos, mas sempre refletindo junto com Hannah Arendt. Aguardo, como sempre, severas e tortuosas críticas. Esse pequeno texto foi escrito quando apresentei uma comunicação em um Colóquio. Abraços!


O Problema (Político) do Preconceito



Abordar a questão do preconceito no sentido político do termo, ou seja, no sentido do compartilhamento do espaço público em que vivemos requer que mantenha-mos uma distância, nada segura, daquilo que se denomina de privado. Nada segura, pois o preconceito se manifesta também e talvez principalmente na esfera privada da vida. Ao proferirmos a palavra preconceito estamos nos referindo a algo que só existe e é relacionado quando se refere a uma época e uma sociedade, ou seja, algo que diz respeito aquilo que se construiu culturalmente e em conjunto. Para tal empreitada será através dos textos de Hannah Arendt que nos moveremos. A escolha da autora também está diretamente relacionado com o tema em questão. Hannah Arendt, que nasceu na Alemanha, foi uma fugitiva da perseguição nazista, pois era judia. Suas obras refletem, do início ao fim e com grande maestria, a problemática do totalitarismo, ou seja, dos estados baseados na ideologia e no terror como nova forma de governo. Como é de conhecimento, os estados totalitários, e aqui principalmente em sua vertente nazista,  perseguiram e exterminaram sistematicamente negros, ciganos, homossexuais, judeus, entre outros, em nome da “purificação da raça”, um absurdo que deve ser lembrado para que jamais se repita na humanidade. Pensamos ser importante que o leitor tenha em mente o que mencionamos acima para que possa entender o porque  da escolha da autora em questão para se tratar de um tema que hoje parece estar como que em voga: o preconceito.

Começamos nosso trabalho com uma pergunta que deve nortear nossa empreitada: quais as características do que chamamos de preconceito? Para a autora preconceito é algo de que compartilhamos uns com os outros e “representa em si algo político no sentido mais amplo da palavra -  ou seja, algo a se constituir num componente integral da questão humana, em cuja órbita nos movemos a cada dia”[1], algo que faz parte do cotidiano. Ao tratar da questão do preconceito em relação a política, Arendt afirma que: “nenhum homem pode viver sem preconceitos, não apenas porque não teria inteligência ou conhecimento suficiente para julgar de novo tudo que exigisse um juízo seu no decorrer de sua vida, mas sim porque tal falta de preconceito requereria um estado de alerta sobre-humano”[2]. A primeira conclusão que podemos tirar dos trechos acima é que os preconceitos fazem parte da vida do homem, como algo inerente ao fato do homem compartilhar o mundo com seus semelhantes. Se o preconceito não deve ser motivo de espanto então quando é que ele passa ser motivo de preocupação? Ou, dito de outra forma, quando é que o preconceito passa a ter relevância na convivência entre os homens? E pensamos que é na própria questão da convivência que encontramos algumas pistas.

Para responder as questões levantadas, nos reportamos ao fato do homem compartilhar um mundo com os demais seres humanos em sua pluralidade, ou seja, ao fato de que não é o homem que habita o mundo, mas sim os homens, com sua igualdade e diversidade. “A pluralidade humana, condição básica da ação e do discurso, tem o duplo aspecto de igualdade e diferença. Se não fossem iguais, os homens seriam incapazes de compreender-se a si e aos seus ancestrais, ou de fazer planos para o futuro e prever as necessidades das gerações vindouras. Se não fossem diferentes, se cada ser humano não diferisse de todos os que existiram, existem ou virão a existir, os homens não precisariam do discurso ou da ação para se fazerem entender. Com simples sinais e sons. Poderiam comunicar suas necessidades imediatas e idênticas”[3]. A ação é, para Arendt, uma atividade humana fundamental, responsável pela formação e preservação de corpos políticos. O homem só é capaz da ação quando possui, para tal, um lugar assegurado, o espaço público-político, espaço em que se distingue dos demais, que revela sua singularidade. É na modalidade da ação e do discurso que o homem percebe e é percebido pelos demais.

Como mencionamos acima, é na convivência humana, no fato da pluralidade que começamos a entrever algumas respostas, a saber, que é necessário um espaço público-político para que o homem possa, em sua igualdade perante os demais, mostrar-se em sua diferença. Ou seja, para que possamos falar em política, temos que garantir que toda a diferença possa ser respeitada. Todo homem, em sua singularidade e em sua igualdade, deve ter sua vez para poder mostrar quem inconfundivelmente é através do discurso e da ação. Se todo preconceito é como que um juízo pré-formado o espaço público-político, o espaço do discurso e da ação, a troca de opiniões, ou de formação de juízos, é o momento em levamos em conta a consideração do ponto de vista de outras pessoas e somos capazes de julgar novamente aquilo que tínhamos como certo ou errado, bem como formar novos juízos. É o momento que o preconceito sobre algo pode mudar. Certamente, quando não encontramos um espaço adequado para a ação e o discurso, é que os preconceitos se tornam relevantes para a convivência humana. É o momento de reivindicar, de se fazer ver e ser ouvido. Pois vivemos em uma pluralidade e é ela que dá a característica ao que chamamos de humanidade. Tentar privar todo e qualquer grupo de ser visto e ouvido é tentar destruir a pluralidade, e foi o que se fez nos regimes totalitários, e ainda se faz em muitos países que ignoram e tentam excluir do cenário político os considerados diferentes. Para um preconceito sobreviver deve-se minar qualquer tentativa de discussão, qualquer espaço público-político em que opiniões sejam trocadas e proferidas, ou seja, evitar a formação de novos juízos.

Os famosos: dizem, “eu acho que é”, “alguém disse que”, podem revelar um preconceito. Quando nos movemos somente com preconceitos e não com juízos, este que pode ser entendido como uma capacidade de troca de opiniões[4], colocamos em risco o próprio âmbito político, que se baseia na livre troca de juízos. “O perigo do preconceito reside no fato de originalmente estar sempre ancorado no passado, que dizer, muito bem ancorado e, por causa, disso, não apenas se antecipa ao juízo e o evita, mas também torna impossível uma experiência verdadeira do presente com o juízo”[5]. Um dos exemplos do perigo de perder-se o âmbito político e basear toda e qualquer ação política em preconceitos é o nazismo, que nega a pluralidade humana e tenta, através da ideologia e da violência, formar um única sociedade como se todos fossem iguais e não houvesse nem identidade e nem singularidade próprias de cada ser humano.

Mas não fiquemos só nos exemplos de estados totalitários, aqui mesmo, no Brasil, partidos políticos, principalmente as bancadas evangélicas e católicas, esquecem do Artigo 5º da Constituição Brasileira, onde se afirma que “todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza”, e tentam vetar qualquer tentativas de inclusão das questões homossexuais para dentro das discussões do congresso brasileiro. Isso revela não só o preconceito, mas a própria ignorância daqueles que deveriam ter por base o entendimento de que a pluralidade é a lei que rege a convivência humana. E mais, “se na ação e no discurso, os homens mostram quem são, revelam ativamente sua identidades pessoais e singulares, e assim apresentam-se ao mundo humano”[6], privar qualquer homem ou mesmo um grupo de homens de ser visto e ouvido, é atentar diretamente a sua qualidade de ser humano e estar entre seus iguais que são diferentes entre si. Toda e qualquer pessoa, partido político ou mesmo estado soberano que tente obstruir a esfera pública-política com se existisse um único pensamento e da mesma maneira levar preceitos religiosos como verdades, esquece que essa esfera não é o de verdades mas sim da opinião.

Trazer para a vida pública-política idéias ou credos religiosos é confundir e misturar duas coisas que são completamente diferentes, necessárias uma a outra, mas diferentes quanto a especificidade de cada uma: a esfera privada e a esfera pública. Por mais que a modernidade se caracterize ao que chamamos de esfera social, um híbrido das esferas privada e pública, não possuímos o direito de tratar as questões que dizem respeito a sociedade como um todo como se estivéssemos decidindo sobre que grama plantar em nosso jardim. Trazer pensamentos únicos e mesmo ideais ou crenças religiosas para discutir questões de racismo, sexualidade, gêneros, e entre outras, é inaceitável. É mais que um erro ou ignorância, é atentar contra o fato de que somos uma pluralidade. E foi exatamente isso que os estados totalitários fizeram: tentaram aniquilar, assassinando em grande escala judeus, negros, homossexuais entre outros. Mas como não estamos em tempos de estados totalitários, ao menos não declarados, salvo talvez a Venezuela, lembramos ao nosso políticos que tentar privar de direitos os cidadãos, discriminando, seja aberta ou mascaradamente, contitui crime. E preconceito é crime!

Às vezes quando paramos e escutamos certos discursos referentes a questões homossexuais e afins parece que voltamos a Idade Média, em que eram os ideais religiosos que dominavam o panorama privado e político. Lembro aos ditos homens políticos que a Modernidade chegou e com ela, junto aos seus problemas e encantamentos, a separação entre estado e igreja. Graças! Nem mesmo mais os filósofos, ao menos em sua maioria, tentam regrar a vida política com suas verdades, pois mesmo estes, se deram conta de que não são as verdades que devem regrar a vida política, que é instável e muda, mas sim a opinião. Opinião que, se dado o devido espaço para que haja diálogo, é capaz de fazer preconceitos mudarem através da formação de novos juízos. Mas não estamos afirmando que somente quando estamos no espaço público-político somos capazes de formar opinião ou mesmo de julgar corretamente. Nem afirmamos que a condição para que se formem juízos seja somente quando estamos na companhia de outras pessoas. Afirmamos que o espaço público-político é condição plena para que juízos sejam formados, porque nesse espaço estamos em contato com a pluralidade que é manifesta quando todos aparecem uns aos outros. Mas então, quando certos grupos são excluídos do cenário público-político ou mesmo em situações emergenciais, por exemplo os estados totalitários, como ter certeza de que estamos julgando levando e conta a pluralidade?  A resposta está na própria atividade de julgar.





[1]    ARENDt, Hannah. O que é polítca?, p. 27-28
[2]    _____________________________, p. 28.
[3]    _________________.  A Condição Humana, p. 188.
[4]    Expressão utlizada por Arendt.
[5]    ARENDT, Hannah. O que é política?, p. 30-31.
[6]    _______________. A Condição Humana, p. 192.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013


                      Aos leitores: estou voltado a postar a biografia de Hannah Arendt, bem como artigos e escritos sobre essa autora de grande renome. O artigo abaixo foi escrito ainda na graduação. Aguardo severas críticas!



Uma interpretação voltada para a Educação e o Ensino de Filosofia a partir do artigo A crise na Educação de Hannah Arendt




Resumo

Muito se fala sobre educação e sobre ensino, mas pouco se discute os pressupostos destes dois conceitos. Hannah Arendt, identificando os problemas presentes em seu tempo no sistema escolar, vai às raízes do problema e nos introduz no tema da educação. O artigo A Crise da educação, dentro da obra Entre o passado e o futuro, traz um problema específico: a crise crescente nos padrões do sistema escolar. Arendt aborda o problema especifico da educação Americana das crianças, mas não se restringe a ele e ajuda-nos a entender as bases do próprio ensino.

Palavras Chave: educação, política, educador, educando.

Arendt constata que há uma crise repetitiva nos padrões do sistema escolar. E esta crise possui um caráter político por que na América ela se torna um fator na política. Segundo Arendt, “a essência da educação é a natalidade, o fato de que seres nascem para o mundo” (2003, p. 223).
A imigração na América traz um problema: as crianças, os filhos de imigrantes, têm de ser introduzidos na escola e a nova língua assimilada. A imigração ocorre devido ao lema americano ser o da eliminação da pobreza e opressão. A atenção do governo se volta para aqueles que são os recém-chegados no mundo, as crianças e jovens.
A influência de Rousseau fica subtendida, segundo Arendt, pois a educação se torna um instrumento para a política e a atividade política é idealizada como uma forma de educação. A autora é categórica ao entender que a educação não pode desempenhar nenhum papel na política. Pois na política se lida com aqueles que já estão educados: os adultos.
É importante considerar que é próprio da condição humana o fato de que cada geração se transforma em um mundo antigo. E que há sempre uma nova geração em mundo que é antigo para eles. Quando se usa da educação para fins políticos, estamos arrancando a possibilidade dos recém-chegados à oportunidade face ao novo.
Esqueceu-se que este mundo em que são educadas as crianças e jovens é um mundo velho. E que são eles que representam o novo. Teorias educacionais foram criadas e testadas em diversos paises da Europa e na América.
O que aconteceu, segundo Arendt, foi que o bom senso falhou. Justamente porque os países confiaram demasiadamente no bom senso para a vida política. Consequentemente para a educação, que estava envolta na política, o mesmo ocorreu. Sempre que o juízo humano falha em oferecer respostas em questões políticas, ocorre uma crise.
Esse juízo pode ser entendido como senso comum. O desaparecimento do senso comum é a crise por qual estamos passando, retrata a autora. A falência do bom senso nos aponta onde ocorreu a crise. Na política ocidental o que impera é o conceito de igualdade. Quaisquer diferenças devem ser postas de lado, seja entre os jovens e idosos ou entre crianças e adultos.
Na educação, a idéia de igualdade, recai diretamente nas costas da autoridade do professor. Esse fator pode trazer benefícios. Mas o que nos interessa é prosseguir na busca pela crise na educação. As medidas que foram tomadas nas escolas, segundo Arendt, dizem respeito a três hipóteses básicas:

[...] O primeiro é o de que existe um mundo das crianças e uma sociedade formadas entre crianças, autônomos e que se deve, na medida do possível, permitir que elas governem. Os adultos aí estão para auxiliar este governo. A autoridade que diz ás crianças individualmente o que fazer e o que não fazer repousa no próprio grupo de crianças – e isso, entre outras conseqüências, gera uma situação em que o adulto se acha impotente ante a criança individual e sem contato com ela. Ele apenas pode dizer-lhe que faça aquilo que lhe agrada e evitar que o pior aconteça [...]. (2003, p. 230).

A autoridade de qualquer grupo é sempre mais forte do que a de um indivíduo. A criança se encontra numa situação complicada individualmente, de uma minoria contra a maioria. Com esta nova estrutura de educação, a criança foi emancipada do mundo dos adultos ficando a mercê do grupo ou de si mesmas.
O que acontece às crianças e jovens numa situação dessas é o conformismo ou o crime juvenil. Dessa forma, segundo Arendt:

[...] O segundo pressuposto básico que veio à tona na presente crise tem a ver com o ensino. Sob a influencia da Psicologia moderna e dos princípios do Pragmatismo, a Pedagogia transformou-se em uma ciência do ensino em geral a ponto de se emancipar inteiramente da matéria efetiva a ser ensinada. Um professor, pensava-se, é um homem que pode simplesmente ensinar qualquer coisa; sua formação é o ensino e não o domínio de qualquer assunto particular. [...]. (2003, p. 231).

Dessa forma não somente a criança é abandonada, mas também o professor fica abandonado acerca do conhecimento. O professor, não sendo mais uma autoridade, deixa de ser eficaz. Para Arendt:

[...] Era muito simplesmente a aplicação do terceiro pressuposto básico em nosso contexto, um pressuposto que o mundo moderno defendeu durante séculos e que encontrou expressão conceitual sistemática no Pragmatismo. Esse pressuposto básico é o de que só é possível conhecer e compreender aquilo que nós mesmos fizemos, e sua aplicação à educação é tão primária quanto óbvia: consiste em substituir, na medida do possível, o aprendizado pelo fazer. [...]. (2003, p. 231)

O professor não deveria transmitir um conhecimento congelado e sim demonstrar como o saber é produzido. Para a criança acontecia a substituição do estudo da gramática, por exemplo, pelo exercício da fala. Pensava-se que a atividade característica da criança era a de brincar. Então, a criança era forçada à passividade. Negando-se que ela desenvolve-se suas próprias iniciativas lúdicas.
O mundo da infância era estendido continuamente e o que deveria preparar as crianças para o mundo dos adultos, a saber, o trabalho, era negado. A criança é excluída do mundo dos adultos e presa artificialmente em seu próprio mundo. O relacionamento de ensino e aprendizagem entre crianças e adultos é extinto.
A crise na educação, segundo a autora, resulta do reconhecimento dessas hipóteses e de uma tentativa frustrada de reformar o ensino escolar. O que acontecerá é uma restauração do antigo ensino. O que nos interessa aqui é perceber quais os aspectos do mundo moderno que revelaram a crise e o que implica na própria educação.
Arendt inicia a discussão pela segunda questão, elucidando que a educação se renova com a vinda de novos seres. O novo ser, a criança, é o objeto da educação e possui para o professor um “duplo aspecto: é nova em um mundo que lhe é estranho e se encontra em processo de formação; é um novo ser humano e é um ser humano em formação” (ARENDT, p. 234).
Esse duplo aspecto corresponde com o relacionamento do mundo de um lado e da vida de outro lado. A criança está num estado de vir a ser. Ela é nova em um mundo que é velho. Os pais inseriram a criança em um mundo, assumindo na educação a responsabilidade pela vida e desenvolvimento da criança.
Isso pode acarretar em conflito, pois a criança precisa ser protegida do mundo e o mundo, que é velho, precisa de proteção contra o novo, à criança. A proteção contra o mundo se dá na família, a vida privada. Ela deve ser oculta do mundo, pois este não lhe oferece segurança nem atenção.
O público, o mundo, quando invade o privado, a família, faz com que as crianças não tenham um lugar seguro onde possam crescer e desenvolver suas habilidades. Quando se tenta estabelecer um mundo público entre as crianças, se está forçando que estas se exponham ao mundo publico.
Isso acontece com a educação moderna, quando tenta estabelecer um mundo de crianças e ou jovens, destruindo as condições necessárias ao seu crescimento essencial. Cabe-nos perguntar, segundo Arendt:

[...] Como pôde então acontecer que as mais elementares condições de vida necessárias ao crescimento e desenvolvimento da criança fossem desprezadas ou simplesmente ignoradas Como pôde acontecer que se expusesse à criança aquilo que, mais que qualquer outra coisa, caracterizava o mundo adulto, o seu aspecto público, logo após se ter chegado a conclusão de que o erro em toda a educação passada fora ver a criança como não sendo mais que um adulto em tamanho reduzido [...]. (2003, p. 237).

Mas os motivos não devem ser procurados na educação e sim nos preconceitos e bom senso acerca da natureza da vida privada e do mundo público e sua relação recíproca. Quando os educadores da modernidade tentaram embasar a educação sob esse pressuposto moderno.
O que aconteceu foi que a sociedade emancipou a vida terrena e a família, considerados bens supremos pela sociedade moderna, e as atividades envolvidas em sua salvaguarda do ocultamento da vida privada, exibindo-a ao mundo público. Os últimos a serem emancipados forram as crianças.
O problemas decorrente é que as crianças ainda estão em crescimento vital e de formação de personalidade. Introduziu-se o social entre o publico e o privado tornado as coisas difíceis para as crianças e jovens, que pedem ocultamento devido ao seu amadurecimento. Mas o que foi feito em termos de teorias educacionais e ocasionou esta crise, foi realizado tento em vista o bem-estar da criança e dos jovens.
A tarefa da escola é o de ensino e aprendizagem. Normalmente a criança é introduzida no mundo pela primeira vez através da escola. Mas a escola não é o mundo e nem deve fingir sê-lo. A escola é uma “instituição que interpomos entre o domínio privado do lar e o mundo, com o fito de fazer com que seja possível a transição de alguma forma da família para o mundo” (ARENDT, 2003, p. 238).
O adulto assume responsabilidade pela criança, não pelo seu aumento vital, mas pelo livre desenvolvimento de qualidades e talentos especiais. Os adultos introduzem as crianças e os jovens aos poucos no mundo. Segundo Arendt:

[...] Em todo caso, todavia, o educador está aqui em relação ao jovem como representante de um mundo pelo qual deve assumir a responsabilidade, embora não o tenha feito e ainda que secreta ou abertamente possa querer que ele fosse diferente do que é. Essa responsabilidade não é imposta arbitrariamente aos educadores ela está implícita no fato de que os jovens são introduzidos por adultos em mundo em continua mudança. Qualquer pessoa que se recuse a assumir responsabilidade coletiva pelo mundo não deveria ter crianças, e é preciso proibi-la de tomar parte em sua educação [...]. (2003, p. 239).


A responsabilidade pelo mundo, na educação, assume a forma de autoridade. Mas não se confunda a autoridade do professor com sua qualificação. Embora se necessite de ambas para lidar com a educação. A qualificação incide em conhecer o mudo e ser capaz de ensinar os outros a cerca dele. A autoridade é quando se assume este mundo.
O educador aparece como um representante de todos os adultos. O que está acontecendo na modernidade é que a responsabilidade está sendo rejeitada, segundo a autora. Consequentemente acontece a perda de autoridade. Os adultos se recusam a assumir a responsabilidade pelo mundo o qual trouxeram as crianças.
Tem-se considerado as crianças como uma minoria oprimida e que necessita de libertação. De outro lado dois fatores são importantes a serem considerados: o primeiro é o de que sempre se considerou a autoridade de pais sobre filhos e professores sobre alunos como algo inquestionável e o segundo é o de que existe uma superioridade temporária na criação de filhos.
Esses modelos de pensamente são de tempos imemoriais e agora eles entraram em choque. Os conflitos iminentes e contraditórios são: no primeiro caso que essa superioridade absoluta entre adultos não deveria existir e no segundo caso que não pode existir uma superioridade temporária na criação de filhos.
A crise que advém da política afeta justamente estes dois pontos e desemboca diretamente na esfera privada, a família. Onde os pais perdem autoridade e se recusam a assumir responsabilidade pelo mundo. As teorias educacionais assumem uma postura revolucionária. Mas mesmo com esse espírito revolucionário, não se pensou em revolucionar a educação na América.
Permaneceu-se conservador em matéria de educação. Para a autora, quando se fala de conservadorismo em sentido de conservação se discute algo que é essencial e faz parte da atividade educacional. Pois a educação sempre abriga e protege alguma coisa, seja a criança contra o mundo ou o mundo contra a criança. Mesmo a responsabilidade implica em uma atitude conservadora. Para Arendt:

[...] Basicamente, estamos sempre educando para um mundo que ou já está fora dos eixos ou para aí caminha, pois é esta a situação humana básica, em que o mundo é criado por mãos mortais e serve de lar aos mortais durante tempo limitado... Para preservar o mundo contra a mortalidade de seus criadores e habitantes, ele deve ser, continuamente, posto em ordem. O problema é simplesmente educar de tal modo que um por-em-ordem continue sendo efetivamente possível, ainda que nunca, é claro, ser assegurado [...]. (2003, p. 243).

Cada geração representa aquilo que é novo e nos trás esperanças. Mas não podemos querer controlar os novos no mundo, segundo Arendt:

[...] Exatamente em beneficio daquilo que é novo é que a educação precisa ser conservadora ela deve preservar essa novidade e introduzi-la como algo novo em um mundo velho, que, por mais revolucionário que possa ser em suas ações, é sempre do ponto de vista da geração seguinte, obsoleto e rente á destruição. A verdadeira dificuldade na educação moderna está no fato de que, a despeito de toda a conversa da moda acerca de um novo conservadorismo, até mesmo aquele mínimo de conservação e de atitude conservadora sem o qual a educação simplesmente não é possível se torna, em nossos dias, extraordinariamente difícil de atingir [...]. (2003, p. 243).

A crise da autoridade na educação que nos assola possui intima ligação com a crise da tradição, de nossa postura frente ao passado. Para o educador, que é o mediador entre o velho e o novo, esse aspecto é de certa maneira difícil de lidar. Pois sua profissão exige certo respeito pelo passado.
Na crise que nos encontramos não se pode simplesmente seguir em frente nem voltarmos para trás. Defrontamos-nos nesta crise na educação com o “fato de, por sua natureza, não poder esta abrir mão nem da autoridade, nem da tradição, e ser obrigada, apesar disso, a caminhar em um mundo que não é estruturado pela autoridade nem tampouco mantido pela tradição” (ARENDT, 2003, p. 245).
É necessário divorciar o âmbito da educação dos demais, principalmente da vida pública e política. Uma atitude sensata por parte da escola, sendo sua maior função, seja a de ensinar como o mundo é, e não instruir as crianças e jovens na arte de viver. Pois o mundo em que elas vivem é velho e a aprendizagem sempre se volta de qualquer maneira para o passado.
Outra atitude importante é que se deve entender que “a linha traçada entre crianças e adultos deveria significar que não se pode nem educar adultos nem tratar crianças como se elas fossem maduras” (ARENDT, 2003, p. 246). A educação, diferente da aprendizagem, tem que ter um final previsível. Não deixando, é claro, de dar a devida importância à aprendizagem.
Não se pode educar sem ensinar e esta é a condição para que o educador perceba sua responsabilidade e, segundo Arendt:

[...] O que nos diz respeito, e que não podemos, portanto delegar a ciência da Pedagogia é a relação entre adultos e crianças em geral, ou... nossa atitude face ao fato da natalidade: o fato de todos nós virmos ao mundo ao nascermos e de ser o mundo constantemente renovado mediante o nascimento. A educação é o ponto em que decidimos se amamos o mundo o bastante para assumirmos a responsabilidade por ele e, com tal gesto, salva-lo da ruína que seria inevitável não fosse a renovação e a vinda dos novos e dos jovens. A educação é, também, onde decidimos se amamos nossas crianças o bastante para não expulsá-las de nosso mundo e abandoná-las a seus próprios recursos, e tampouco arrancar de suas mãos a oportunidade de empreender alguma coisa nova e imprevista para nós, preparando-as em vez disso com antecedência para a tarefa de renovar um mundo comum. [...] (2003, p. 247).

Bibliografia
ARENDT, Hannah. Entre o passado e o futuro. São Paulo: Perspectiva, 2003 5ªed.
HERMENAU, Frank. “No fundo, educamos desde sempre para um mundo saído de seus eixos”: sobre a relação entre política e educação em Immanuel Kant e Hannah Arendt. In: DALBOSCO, Cláudio Almir (org.). Filosofia prática e pedagogia. Passo Fundo: UPF, 2003.
HERMENAU, Frank. Agir no espaço pedagógico: distinções segundo Hannah Arendt. In: DALBOSCO, Cláudio Almir; FLICKINGER, Hans-Georg (orgs). Passo Fundo: UPF, 2005. 

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Responsabilidade Pessoal e Coletiva

Pessoal!
                           Depois de mais de um mês sem publicar, posto hoje o primeiro artigo que escrevi sobre Hannah Arendt. Não o modifiquei em nada. Por isso, aguardo críticas vociferadas! Abraço a todos! Como o combinado, nas próximas publicações, seguirá duas postagens sobre a vida de Hannah Arendt e depois o comentário sobre algum artigo dela, aguardo sugestões sobre o que comentar!

Resumo

                           A sociedade e o indivíduo tendem a esquecer de suas responsabilidades para com os acontecimentos políticos. Como se as decisões dissessem respeito somente aos seus representantes e as responsabilidades pessoais e coletivas fossem inexistentes, sendo incapazes de julgar as ações realizadas. Este artigo pretende abordar estes temas a partir de Hannah Arendt, possibilitando uma reflexão atual sobre a política.
Palavras-chaves: responsabilidade pessoal e coletiva, julgamento humano, sistema e totalitarismo.



1. Localizando a autora

                              Hannah Arendt nasceu na Alemanha (1906 – 1975) e era judia. Devido aos horrores da 2º Guerra Mundial, fugiu para a França e outros países. Por último para os Estados Unidos, onde permaneceu até a sua morte. Sua obra pode ser considerada fenomenológica, pois enfatiza a dimensão intencional da consciência como ponto de partida para filosofar. Ela preocupa-se em ajustar o si próprio de cada ser humano com a política.
Seria perigoso pensar os temas que Hannah Arendt desenvolve sem ressaltar que seu pensamento refere-se especialmente sobre o regime totalitário empregado na Alemanha nazista de Hitler. Foi a partir de Auschwitz, onde pessoas estavam sendo mortas inocentemente, que ela começa a refletir sobre a política. A obra Origens do Totalitarismo (1951) é onde ela aborda o tema do totalitarismo em sua plenitude. Esse tema perpassa todos os seus escritos.
                               A atualidade de seu pensamento reside no fato de colocar o homem como responsável por suas ações e a concepção de que o mundo em que estamos pode ser velho, mas para quem nasce ele é novo e precisamos ter responsabilidade para com o que iremos deixar. A responsabilidade pessoal e coletiva encontra seu lugar como reflexão sobre o que consideramos correto ou não, tanto pessoal como coletivamente.
                                Iremos abordar essas questões dentro do livro Responsabilidade e Julgamento, que reúne artigos proferidos por Hannah Arendt ao longo de suas aulas e palestras. O capitulo de titulo Responsabilidade Pessoal sob a Ditadura, é uma resposta de Hannah Arendt aos críticos, aos quais teriam interpretado mal seus pensamentos em sua obra Eichmann em Jerusalém.

2. Responsabilidade pessoal

                                 Desde Sócrates, uma frase ressoa forte: é melhor sofrer o mal do que fazer o mal. Uma convicção difundida de que não se resiste a todas as tentações, que não se pode confiar em ninguém (na medida que não resistiríamos num momento critico) e que ser tentado e forçado é o mesmo.
Se alguém disser: mate esta pessoa ou morrerá, estará apenas sendo tentando a matar alguém, não sendo forçando a matar. Ser tentado não é desculpa moral para matar. Poderíamos dizer que quem julga tais questões produz um juízo a cerca de algum fato e teria que estar presente. O direito ou capacidade de julgar ocupa lugar nas questões morais.
                                 Hoje se acha um medo comum, o medo de julgar. Já que como diz a frase: não julgue para não ser julgado, produz inconscientemente o medo de que se eu julgar, estarei sendo julgado. A não-vontade de julgar seria admitida se não fossemos agentes livres.
Nesse caso, de não-julgar, podemos dizer que a idéia que se possui é a de que somos todos parecidos, ruins e quem tenta ou finge ser inocente deve ser realmente decente ou um hipócrita e em todos os casos deve nos deixar em paz. Mas este modo de pensamento não procede com a verdade, deve-se culpar este ou aquele indivíduo por este ou aquele crime, o indivíduo na sua singularidade.
                                Dar nomes e atribuir culpa àqueles que estão no exercício do poder, ou mesmo dos mortos, é algo que parece estar imbuído de um medo comum. Pois está implícito como que uma falha de responsabilidade em quem está sendo julgado e outra em quem julga. Justamente é por essa causa que existem as leis, através das instituições, para julgar as questões de responsabilidade pessoal. São julgados homens de carne e osso, excluído tendências ou grupos, que transgrediram aquilo que faz parte de nossa integridade humana comum.
                                 As questões morais e legais não são idênticas, mas pressupõe o poder de julgamento. Como distinguir o certo do errado, separado do conhecimento das leis e sem ter estado em igual situação? Parece-nos que a resposta requer uma localização não da responsabilidade pessoal, mas do julgamento pessoal.
                                Mesmo as pessoas que possuem pouco preparo mental ou nenhum preparo podem julgar? No caso dos intelectualmente preparados que falham, reside onde o porquê da falha?
                                A punição acontece legalmente por dois modos: a necessidade de a sociedade ser protegida por um crime (reabilitação de criminosos e força dissuasiva para criminosos em potenciais) e a justiça retributiva. Mas esses dois modos não se aplicam aos criminosos de guerra, pois não são criminosos comuns, provavelmente não cometeram outros crimes e a sociedade não precisa ser protegida contra eles. Que possam ser reabilitados é improvável; quanto a dissuadir as chances são pequenas devido a magnitude de seus crimes e a noção de retribuição também não funciona.
                                O senso de justiça nos exige que façamos algo, como se fosse um desejo de vingança. A lei e a punição surgem para que não aconteça um ciclo interminável de vinganças. O mesmo nos afirma que as noções falharam no estado totalitário. Terá de se começar pela analise do que o julgamento humano pode ou não realizar. Pois diante do que está exposto, as noções não se encontram nas regrais gerais nem nas particulares.
                               O julgamento humano é uma faculdade que nos capacita a julgar racionalmente; funciona espontaneamente sem estar limitada por padrões ou regras e produz seus princípios pela própria atividade de julgar. O problema do julgamento é um problema da moralidade e precisa de esclarecimentos para se chegar á questão geral da responsabilidade pessoal neste sentido: responsabilidade política que todo governo assume pelas façanhas e malfeitorias de seu antecessor e toda nação pelos feitos e malfeitorias do passado.
Temos de ter a concepção de que vivemos numa continuação histórica, onde recebemos metaforicamente a carga de culpa e os feitos daqueles que vieram antes de nós. O político assume o passado e quer assumir responsabilidade política para arrumar o tempo. Este sentido de renovar ou arrumar deve ser entendido por que somos recém vindos a um mundo que existia antes de nós e vai continuar depois que partirmos e também por que nós deixaremos nossa carga para os sucessores.
                               Não podemos sentir culpa pelo que não fizemos. Não é este tipo de responsabilidade pessoal que se está discutindo, pois quando todos são culpados ninguém o é. A culpa e inocência só tem sentido quando aplicadas a indivíduos. Torna-se mentiroso culpar somente uma pessoa pelo andamento de determinado grupo. Todos são responsáveis e devem ser julgados individualmente.
Dentro de um sistema político existem relações de vários ramos e são as pessoas usadas pelo sistema que mantém a administração em andamento. O que poderíamos chamar de Dente de Engrenagem[3], onde cada pessoa se torna descartável sem mudar o sistema mesmo que seja substituída. A questão da responsabilidade pessoal por parte de quem controla toda a engrenagem é uma demanda referente ao sistema.
                             Quando estamos falando de uma ditadura ou um sistema totalitário deve ser claro que somente uma pessoa toma as decisões. Fora este indivíduo, alguém mais podia ser considerado responsável? Pode-se dizer que se sou substituível (um dente de engrenagem) a ação que eu não tivesse feito seria realizada por outro e isso diminuiria minha responsabilidade?
No caso Eichmann a explicação acima não fazia sentido, era necessário buscar um ponto de vista diferente. Não estava em julgamento um sistema, mas um ser humano. Se fosse permitido declarar-se culpado ou inocente tornar-se-ia um bode expiatório. Se transferisse responsabilidades, teria de nomear pessoas. O julgamento deu certo por que transformaram-no num homem e assim as questões de responsabilidade pessoal e culpas legais puderam ser julgadas.
                             O contexto do sistema não deve ser deixado de fora por que envolve as questões legais e morais. Numa ditadura são privados os cidadãos e seus direitos; a vida privada e a atividade política podem continuar. Os crimes nestes são contra inimigos declarados. No totalitarismo a dominação se estende á todas as esferas da vida desde a privada até a pública. Os crimes são contra pessoas inocentes. Mesmo quem participa da vida pública, independente der se do partido, liga-se às ações do governo.
                            Os juízes nos tribunais declararam que os homens não deveriam ter participado de crimes realizados pelo governo, pois sabe-se o que é certo e errado, sendo esta uma questão de responsabilidade. Uma das objeções feitas é a de que seria correto permanecer nos cargos para evitar um mal maior. Mentira, pois de qualquer forma está se escolhendo o mal conscientemente. As pessoas deveriam parar e pensar ao invés de se prenderem a regras há muito esquecidas, tais como a de que é melhor evitar um mal maior fazendo um menor.
                           O centro moral foi atingido porque percebeu-se que onde havia uma ordem que dizia “não matarás” foi substituída pela “matarás”, não os inimigos e sim os inocentes. O povo alemão acreditava na nova ordem como se a moralidade se reduzisse ao seu significado etimológico: conjunto de costumes.
Aqueles que não participaram foram os únicos que julgaram por si próprios. Eles se questionaram se conseguiriam viver consigo mesmos. Aqueles que se mantém presos a regras e não julgam o certo do errado, sendo coniventes com o mal, não são confiáveis. Todos se tornam responsáveis na medida que se apóia qualquer tipo de mal. Somente no caso da escravidão é que pode existir uma obediência não possível de ser refutada.
                          Enquanto membros políticos temos responsabilidades para com os atos porque os apoiamos. Se fomos obedientes a mesma responsabilidade está presente. Neste sentido, “os melhores de todos serão aqueles que têm uma única certeza: independentemente dos fatos (…) estaremos condenados a viver conosco mesmos” (HANNAH, 2003, p. 108).

3. Responsabilidade Coletiva

 

                           Temos uma suposição de que haveria responsabilidade por coisas que não fizemos, mas não há um ser ou sentir-se culpado por coisas que não participamos. A culpa, diferente da responsabilidade, se relaciona sempre com o pessoal. Liga-se a um ato, não com as intenções. Pode-se dizer que assumimos metaforicamente as culpas de nossos pais, mas o que realmente pode acontecer é que poderemos pagar por eles.
                           Possuo compaixão por outra pessoa quando percebo que não sou eu quem sofre, pode-se dizer que tenho solidariedade com a pessoa. “Somos todos culpados” aparece como uma declaração de solidariedade com os malfeitores. A responsabilidade coletiva diz respeito aos dilemas políticos, distintos dos legais ou morais.
                           Se estivermos diante de um julgamento onde um réu aparece como participante de um determinado grupo que cometeu crimes e afirme que foi um mero dente de engrenagem, no momento em que for julgado aparecerá como uma pessoa sendo sentenciado de acordo com o que fez.
Responsabilidade precisa ser diferenciada de culpa. Por exemplo, num assalto a banco o que está em jogo são os vários graus de culpa. Duas condições se fazem necessárias para que se tenha responsabilidade coletiva: a primeira que devo ser considerado responsável por algo que não fiz; a segunda, o fato de que eu pertença a um grupo do qual não seja possível sair. Por exemplo, mesmo que eu mude de país estarei pertencendo a um grupo.
                          A responsabilidade coletiva se torna política, pois a comunidade pode assumir responsabilidade dos atos de um dos membros ou pode ser considerada responsável pelo ato de um membro em seu nome. Quando os padrões morais e políticos entram em conflito, a linha divisória entre responsabilidade política (coletiva) ou legal (pessoal) se torna mais clara.
Uma dificuldade de discutir as questões propostas se faz presente em razão dos termos que usamos para moralidade (costumes) e a ética (maneiras), que dizem respeito se a conduta do cidadão é boa para o mundo, não se ele é bom. O alvo de interesse é o mundo e não eu. Na antiguidade quando se fazia o mal, o mesmo só poderia ser apagado com outro mal, e somente um tribunal poderia parar com as cadeias intermináveis de malfeitorias.
                          Com o cristianismo a inquietação com o mundo e as obrigações a ele ligadas muda para as preocupações com a alma e sua salvação. Ou seja, evitar participação pública e se preocupar com o privado. As regras, por causa da origem divina, eram absolutas e suas sanções consistiam em recompensas e castigos futuros. Mas quando a fé deixa de existir, essas regras não sobrevivem.
Nas considerações morais o eu, e nas políticas de comportamento o mundo. A frase socrática de que seria melhor sofrer o mal do que fazer o mal nos diz que vivo junto com os outros e com meu eu. Esse viver junto com meu eu tem precedência sobre todos os outros. O importante é que não haja nenhum tipo de mal, pois sofrer e fazer são igualmente ruins, a nossa obrigação é evitar que aconteçam.

BIBLIOGRAFIA

  • AENDT, Hannah. Responsabilidade e Julgamento. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.
  • ARENDT, Hannah. A Vida do Espírito. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1991.
  • _______________. A condição humana. Rio de Janeiro, Forense Universitária, 2003.
  • ________________. Responsabilidade e Julgamento. São Paulo: Cia. das Letras, 2004.
  • _______________. Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal. São Paulo, Cia das Letras, 2000.
  • _______________. Entre o passado e o futuro. São Paulo: Perspectiva, 2001.
  • _______________. Hannah Arendt – Martin Heidegger: correspondência1925/1975.

[1] Artigo produzido para a Semana Acadêmica de Filosofia da UNIVERSIADE DE PASSO FUNDO. Dia 15 de Junho de 2005.
[2] Graduado em Filosofia pela UPF.
[3] Hannah Arendt usa esta expressão para explicar as questões referentes à responsabilidade pessoal dentro de um estado.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Biografia VIII

                    Mesmo com tempo escasso, me cobrem postagens! Segue mais duas postagens com a biografia de Hannah Arendt e após, o comentário de um texto dela. Ainda a escolher. Abraços!              

             Kurt Bulemfeld, como um parente mais velho para Hannah. Mesmo que as idéias possam os separar, a amizade sempre será maior. Nos tempos que viveram, o engajamento política era uma questão que se impunha para Günther e Hannah. Ele cria um grupo de intelectuais em casa e ela milita numa organização judaica. A luta contra Hitler se torna quase que uma obrigação moral. A importância de Kurt vai além da amizade entre ele e Hannah. Para o sionismo alemão ele significa muito mais, mas essa questão não exploraremos aqui, exceto se quiserem maiores informações nos comentários.
          Com a ascensão do nazismo, a dificuldade de obter renda e lugar fixo para morar piora. Muitos amigos próximo ao casal falam que o nazismo irá ruir logo e que devem ser pacientes. E em um momento de extrema dificuldade, Günther conhece Jhering, um jornalista crítico e influente. Hanah irá trabalhar fazendo resenhas de livros para uma revista socialista, uma das melhores da época. É por esta época que ela e seu marido começam a distanciar-se, seja pelas idéias, seja pelo tempo de trabalho de cada um. O ano de 1933 marca também o distanciamento e rompimento definitivo de Hannah com Heidegger, ao menos pelos próximos 19anos.
             Heidegger se torna nazista. E esse fato não pode ser negado! Ele infecta seu vocabulário com expressões nazistas e isso fica evidente em seu discurso como Reitor da Universidade de Freiburg em abril de 1933. E em toda sua vida ele jamais pronunciará uma palavra de arrependimento sobre isso publicamente.  Se pediu em conversas privadas, não o sabemos.  Mas mesmo com seu engajamento ao partido nazista, para Hannah, ele continuará sendo o filósofo mais importante da modernidade.  ela sempre lhe será grata por ter tornado o pensamento vivo e por ter sido aquele que a fez aprofundar e cultivar a si mesma.
                Mas para além desse reconhecimento está o fato: Heidegger vira um nazista e isso não é algo pequeno. Com o passar dos anos, principalmente em correspondências, fica claro que Heidegger é anti-semita. Ele quer uma revolução no âmbito acadêmico, mas a que custo?

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Biografia VII

                Daremos continuidade a apresentação da vida de Hannah por quatro postagens seguidas e depois o comentário de um texto. Estou aberto a sugestões de textos para comentar. Abraços a todos e obrigado!

I – Biografia VII

Günther Stern, marido de Hannah e ex-aluno de Heidegger, em meados de 1927, formula uma teoria da resistência e rejeita a filosofia de Heidegger por considerá-la perigosa. Ao que parece Hannah nunca irá reconhecer a importância intelectual de seu primeiro marido e nem sua possível influência em suas obras. Mais ainda, Hannah não verá em Günther um filósofo capaz de opor-se a Heidegger. Talvez seja o fato de ela ver Heidegger, em primeiro lugar, como seu professor e mestre.
Em Frankfurt, em meados de 1930, Hannah volta a frequentar seminários de filosofia. Ela se torna alvo dos estudantes, que a chamam de pretensiosa; outros de original. É sua maneira apaixonada de falar e expor que, de qualquer forma, chama a atenção de todos. Günther é primo de Walter Benjamin e tenta com sua ajuda obter a habilitação para professor aprovada. Não entraremos aqui na conturbada relação de Walter com Adorno. Esse que adotou um tom perante Walter que causa espanto e revolta. Günther não consegue a habilitação.
Em meados de abri de 1930 o casal se muda novamente para Berlim e Hannah trabalha para um jornal. Nesse mesmo ano, no verão, Hannah se encontra com Heidegger, casualmente, em uma plataforma da estação. Ambos fingem não reconhecerem-se, mas Hannah o confronta. Ela não comenta nada a Günther, e deicide escrever a Heidegger. Ela ainda se comporta com um tom de amante. Mas isso, aos poucos, vai mudando. É nesse período que Hannah e Günther possuem suas primeiras discussões. Hannah decide engajar-se nos círculos sionistas e vais aos poucos abandonando o lar.
Kurt Blumenfeld, que se tornará um dos amigos mais próximos de Hannah até o final de sua vida, amigo do casal, está engajado em uma organização sionista. Hannah fará oposição a Hitler e a ascensão do nacional-socialismo através dessa organização e também através do jornal em que trabalha.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Estudo Comentado - II




Texto: Perspectivas Sobre a Questão Alemã (ARENDT, Hannah. Compreensão e Política e Outros Ensaios 1930-1954. Relógio D'Agua, 2001).

Redigido no inverno de 1945, esse texto problematiza sobre a confusão reinante ao se referir a Alemanha nazista frente ao horror que encontrou-se após a vitória dos países Aliados, mas não apenas aos termos usados para classificar os crimes e sim, também, de que maneira apresentar isso ao mundo. O caráter nacional alemão se torna um problema. Deixem-me ser mais claro. Após a derrota da Alemanha quando os países, em sua totalidade, souberam dos campos de concentração e especialmente dos campos de morte, ficaram surpresos e estupefatos, se assim pode-se afirmar, com o que realmente estava acontecendo. A própria realidade era aterradora. Países como a França, que colaboraram ativamente com o envio de judeus de volta para a Alemanha, sabiam que esses judeus estavam sendo enviados pra morte. Logo que os fatos começaram a aparecer após o término da guerra, era preciso que, segundo Arendt, “a questão alemã, tal como dela hoje se fala, foi desenterrada do passado, e se é reduzida hoje ao problema da agressão alemã, é porque continua a acalentar-se a esperança de uma restauração do status quo na Europa. Para isso, frente à guerra civil que o continente, começou por parecer necessário 'restaurar' a idéia de guerra no sentido do século XIX: conflito de ordem puramente nacional, onde são mais países que movimentos, mais povos que governos, a sofrer as derrotas e obter as vitórias”(p.41).
O pano de fundo da discussão do texto é a restauração da imagem da Europa frente aos demais países e a forma como se tentou encobrir a realidade do que aconteceu na Alemanha nazista. E nesse sentido Arendt descreve o papel crucial que a propaganda teve, sendo utilizada pela política para formar opiniões no sentido de fornecer orientações e também para encobrir os fatos tal como aconteceram. A propaganda foi utilizar por Hitler para espalhar o preconceito principalmente sobre os judeus e depois a Europa como um todo viria a servir-se para encobrir os mesmos crimes a favor de sua imagem. Para além disso está o fato inegável e que venho salientando praticamente em todas as publicações e comentários de textos que faço, do caráter de novidade do totalitarismo. “Só os especialistas, demasiado apegados à letra do discurso ou do texto e ao mesmo tempo incapazes de compreender as realidades políticas, levaram a sério as declarações dos nazis, e as interpretaram como derivadas de certas tradições alemãs ou européias. Muito pelo contrário, o nazismo significa de fato a derrocada de todas as tradições alemãs e europeias, das boas como das más”(p. 46).




Foi certamente a fragmentação do chamado caráter nacional alemão que deve chamar mais nossa atenção, somado ao fato “ mais grave ainda: é que o homem que tomou o lugar do alemão – ou seja, esse tipo de homem que, quando se apercebe do perigo de destruição absoluta, decide torar-se ele próprio uma força destrutiva – transborda as fronteiras da Alemanha” (p.48). O estado nacional que representava simbolicamente a soberania do povo, que garantia sua segurança, estava cada vez mais distante disso. Era o próprio problema da estrutura de classes que transbordava por toda a Europa. “E a essa verdade do declínio do estado nacional, foi dada como resposta a famosa mentira da 'Nova Ordem' da Europa, que degradava os povos em raças, e os preparava para o extermínio” (p.49).
O problema principal que resulta no pós-guerra não é pois o da “questão alemã”, e sim na verdade, “a crise, em todo o continente da organização em estados” (p.51). O artigo problematiza ainda sobre a reconstrução da Europa, das dificuldades que os governos exilados em fazer o tão necessário renascimento político. Gostaria de parar por aqui, pois, minha intenção, nesses Estudos Comentados, é apresentar ao leitor um idéia do artigo em questão. Arendt ainda irá tratar, sucintamente, sobre as questões dos movimentos clandestino, da assimilação e claro da reconstrução da Europa.
Aguardo comentários!
No próximo post damos continuidade a apresentação da vida de Arendt.